07 Agosto 2011

V Congresso Internacional da ABDA & IV Encuentro Latinoamericano de TDAH

V Congresso Internacional da ABDA & IV Encuentro Latinoamericano de TDAH

Nesta última semana estive presente neste encontro maravilhoso de médicos neurologistas, psiquiatras, psicólogos, educadores e portadores de TDAH.

Além de aproveitar a bela vista do Leblon e Ipanema, o congresso foi um verdadeiro encontro de inclusão.

'TDAH um compromisso de Todos".

Inclusive a deputada Mara Gabrilli, relatora do projeto de lei que dispõe sobre o diagnóstico e o tratamento do TDAH e dislexia na educação básica, esteve presente juntamente com membros da ABP discutindo o andamento do projeto e futuras evoluções.

Um dos primeiros simpósios o palestrante Paulo Mattos abriu discussão com o tema: TDAH: uma doença inventada?

Infelizmente, no Brasil existem diversos grupos de profissionais que desacreditam da ciência e questionam a existência do TDAH. Contribuindo para o preconceito com o correto diagnóstico e tratamento adequado medicamentoso. Prejuízo sem dúvidas do portador de TDHA, que além dos inúmeros prejuízos sociais, afetivos e profissionais, não chega a uma informação cientifica sobre a sua doença.

O Transtorno de Deficit de Atenção e Hiperatividade é uma doença dimensional, sendo um dos maiores fatores de risco a interação genética (76% crianças/ 30% adultos) com estressores pleiotrópicos (adversidades psicossociais). Existe uma grande sobreposição de TDAH, autismo e dislexia.

A atual engenharia social do Brasil é um dos principais fatores que contribuem para um total descredito sobre a doença e seus tratamentos. Compromisso de todos nós divulgar informações cientificas sobre o assunto e desmistificar as mídias distorcidas que estão disponíveis para a maioria da população.

O Dr Argyris Stringaris participou do Congresso expondo seus diversos estudos sobre a irritabilidade do TDAH. Foco que trará uma grande mudança no tratamento, pois permitirá entender os problemas emocionais que envolvem o portador de TDAH. Diferenciar a irritabilidade das principais comorbidades como transtorno bipolar, depressão e Transtorno Desafiador Opositivo é difícil, porém existem certas características que nos ajudam a delimitar estas fronteiras. Sendo o tratamento diferente em cada caso específico.

Um ponto particularmente importante é delimitar se a irritabilidade é realmente do portador do TDAH ou de seus familiares que convivem. Pois muitas vezes, a percepção dos conviventes é tão pessimista ou tão reforçadora negativamente que não permite uma boa resposta ao tratamento. Por isso foi reforçado diversas vezes a importância da orientação e suporte terapêutico familiar.

O Dr. Luis Rodhe contribuiu com uma explanação sobre as principais mudanças dos critérios diagnósticos do TDAH que acontecerão com o DSM-V, previsto para 2013. Mudanças principalmente para o TDAH em adultos, que especificará os critérios de impulsividade, emocões e funções executivas.

Ênfase novamente sobre o constructo dimensional da doença. É possível que todos na população tenham os mesmos genes de TDAH, a grande diferença está na expressão e combinação destes genes. Somos todos hiperativos em algum grau.

Outro ponto importante de discussão é sobre a memória operacional de trabalho que é diferente de atenção. Apenas 1/4 dos TDAH apresentam esta dificuldade e muitas vezes é confundida com desatenção, atrapalhando uma abordagem mais especifica de tratamento.

Exclusivo para médicos foram as mesas redondas sobre farmacologia avançada e tratamentos combinados.

Excelentes e elucidativas discussões.

O Dr. Carlos Salgado (atual presidente da ABEAD - Associação Brasileira de álcool e drogas) abordou o tema: TDHA, COMORBIDADES E PERSONALIDADE.

Uma linda explicação da cascata de desinibição comportamental e traços de personalidade. Isto nos faz entender melhor as dimensões de personalidade, os subtipos de TDAH e a gravidade.

Afinal o TDAH está frequentemente associado ao uso de substãncias psicoativas. Entender estes pontos é fundamental para uma abordagem mais adequada ao tema.

Como o congresso foi para o público geral, encontramos diversos familiares e portadores de TDAH. Diversas palestras abordando assuntos que todos nos defrontamos diariamente não poderiam faltar. Especial atenção ao tema: TDHA E O CASAMENTO. Assuntos, tais como: Casais com TDAH com filhos, A esposa com TDHA, Personalidade, TDAH e casamento; foram abordados brilhantemente.

Ainda vou escrever em detalhes sobre o assunto. Mas resumindo, a grande missão do companheiro(a)ou portador do TDAH: exercitar a cooperação, ouvir o outro, esperar com paciência, prestar atenção ao outro, inibir a agressividade, cuidar da manutenção do casamento. O maior dilema do companheiro do TDAH é o "sentimento de ser abandonado ou esquecido", enfrentar este fato com perseverança é o grande desafio para o amadurecimento do relacionamento. Quanto mais orientação e entendimento sobre o TDHA, mais fácil é o entendimento deste dilema. Assim como entender o "vazamento verbal", a "desorganização", e a tendência de "viver o presente" faz ao invés de criar rótulos de "preguiçoso", "prolixo", ïmaturo; melhorar a comunicação e aumentar a capacidade de resolver conflitos.

Além do congresso, aconteceu o Ëncuentro Latino Americano de TDAH", formado pela Liga Latinoamericana del TDAH. Liga responsável pelo consenso de TDAH na América Latina.

Finalmente, o último dia foram várias discussões sobre as diferenças diagnósticas e a comorbidade do TDAH e Transtorno Bipolar. Foco na desregulação do humor que ocorre no TDAH e as diferenças da instabilidade do humor do Transtorno Bipolar. Consequentemente, como tratar a desregulação do humor.

Particularmente, foco do meu interesse, foi intensamente discutido TDAH em adultos e seguimentos de pesquisas no ambulatório de TDAH de Adultos coordenado pelo DR. Eugenio Grevet. Abordagem mais especifica as comorbidades de Transtornos de ansiedade e depressão e transtorno de oposição.

Enfim, o congresso foi excelente e aguardo os próximos que ainda virão.

TDAH - UM COMPROMISSO DE TODOS.

31 Julho 2011

Novidades em breve sobre TDAH


Nesta próxima semana estarei participando do V Congresso Internacional da ABDA e IV Encuentro Latinoamericano del TDAH.

Logo após o retorno escrevo as principais novidades.


Médicos desmistificam relação entre 'maldição dos 27' e a morte de Amy






Hendrix, Joplin, Jim Morrisson e Kurt Cobain morreram com mesma idade.
Especialistas avaliam risco das drogas e consideram histórico dos artistas.
Do G1, em São Paulo

Jimi Hendrix, Janis Joplin, Jim Morrison, Kurt Cobain e, agora, Amy Winehouse. A chamada "maldição" que levou à morte ícones do rock e do pop aos 27 anos, cientificamente, não passa de uma triste coincidência, de acordo com especialistas ouvidos pelo G1.

Segundo especialistas ouvidos pelo G1, não é possível responder com precisão matemática sobre quanto tempo o corpo de uma pessoa resiste a uma rotina de abusos de drogas e álcool. O que é possível afirmar, entretanto, é que quanto mais jovem uma pessoa começa a usá-los, mais cedo terá problemas .
“Possivelmente, [as celebridades que morreram aos 27 anos] usaram quantidades maiores por tempo maiores. Os efeitos variam de acordo com o tempo e a quantidade em que estão relacionados”, afirma Ivan Mario Braun, psiquiatra do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP).



Braun lembra que drogas como cocaína e heroína - associada oficialmente às mortes de pelo menos Joplin e Cobain - têm risco maior de produzir overdose, diferentemente da maconha e do cigarro, por exemplo.
Coquetel mortal
Ronaldo Laranjeira, professor de psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), afirma que o risco do usuário ter uma overdose aumenta muito quando se associa crack ou cocaína ao álcool. “Cria-se uma terceira molécula muito mais tóxica para o músculo cardíaco e para o cérebro podendo ocasionar uma arritmia cardíaca”, explica.
Foi justamente uma combinação fatal dessa que, em 2007, quase levou Amy Winehouse à morte. Segundo relatos à época, a cantora foi hospitalizada com uma overdose após misturar um coquetel que incluía heroína, escstasy, cocaína, quetamina (um anestésico de uso veterinário) e álcool.
Segundo a Polícia Metropolitana de Londres, ainda é cedo para se falar sobre as causas da morte de Amy, que só serão determinadas após necrópsia prevista para acontecer ainda nesta semana.
Mas além da lista de drogas citadas acima, Amy também já foi flagrada consumindo crack. De acordo com um estudo coordenado por Laranjeira, por meio Instituto Nacional de Políticas do Álcool e Drogas, quase um terço dos usuários de crack morre nos primeiros cinco anos de uso da substância.
Ao longo de 12 anos, a pesquisa avaliou 131 pacientes dependentes, que foram internados entre os anos de 1992 e 1994. Vinte e cinco deles morreram antes dos 25 anos. Neste caso, a maior causa da morte não foi overdose, e sim, homicídio já que grande parte dos usuários no Brasil está envolvida também no tráfico. “A mortalidade ocasionada por crack é pior do que a de heroína. A morte de usuários de heroína é de 1% ao ano”, avalia.

Doença como 'liberdade poética'
Para Laranjeira, Amy sofria de uma doença grave e “optou” por não tratá-la. “Efetivamente, ela nunca se expôs a um tratamento e estava se deteriorando mentalmente. Teria de ser internada mesmo involuntariamente, pois não estava mais em condições mentais de decidir.”
O psiquiatra reforça que quando a pessoa usa estes tipos de substância química, entra em um estado mental que não consegue parar, apesar das complicações. “No caso dela, o fato de ser uma celebridade rebelde tumultuou mais sua vida. A doença fazia parte de uma liberdade poética. Morreu de uma doença que nunca tratou.”
Os especialistas ouvidos pelo G1 lembram ainda que geralmente as mulheres sofrem mais os efeitos e ficam dependentes mais rápido das drogas, se comparado aos homens. No entanto o ritmo de vida, como hábitos alimentares, também tem influencia nas consequências.

Sempre há sequelas e existe um preço a ser pago"
Ronaldo Laranjeira
Doenças crônicas podem acelerar o processo de deterioração do organismo, como aconteceu com Kurt Cobain, vocalista da banda Nirvana, que se suicidou com um tiro na cabeça em 1994, após consumir uma alta dose de heroína. Em entrevistas, o músico costumava dizer que viciou-se "conscientemente" em heroína pois a droga era a única capaz de aliviar as fortes dores no estômago que ele sentia desde criança.
“O uso de drogas vai produzir doenças. Se o usuário já as possui, piora. Há uma intoxicação e sobrecarga no organismo, além dos danos cerebrais. Sempre há sequelas e existe um preço a ser pago”, conclui Laranjeira.




12 Junho 2011

PSIQUIATRA

O DIREITO DE NÃO USAR DROGAS

Por UNIAD
Dom, 05 de Junho de 2011 12:33
Estado de São Paulo


Recentemente, divulgou-se a opinião sobre o futuro da política de drogas no Brasil do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que defende maior liberdade de uso da maconha. Fernando Henrique disse que um mundo sem drogas é inimaginável, expressando a visão da Comissão Brasileira sobre Drogas e Democracia. Ao alegar que a sociedade conviverá sempre com as drogas, defende com uma clara distorção da racionalidade a ideia de que isso deveria tornar os usuários imunes ao sistema criminal. Teríamos uma inovação na área dos direitos humanos, na qual todos nós deveríamos ter o direito de continuar usando drogas ilícitas, independentemente das consequências negativas para o indivíduo e para a sociedade. Por essa visão, seria um abuso dos direitos individuais qualquer constrangimento ao uso de drogas. No Brasil, a lei que regula o consumo de substâncias (Lei nº 11.343/2006) trouxe mudanças significativas, com menor rigor penal para o usuário. Ainda não se sabe se produziu alguma diminuição do consumo de drogas. Todas as evidências indicam o contrário. Em relação à maconha e à cocaína, somos um dos poucos países do mundo onde o consumo está aumentando. No mínimo, essa nova lei não impediu esse aumento. Estamos com maior liberdade para usar drogas, mas os usuários continuam tão desinformados e desassistidos de tratamento quanto antes. A defesa do direito ao uso de drogas é uma visão por demais simplista e não leva em consideração a complexidade do uso de substâncias, em particular as modificações que o uso de drogas provoca no sistema nervoso central. Parte-se do princípio de que todos os usuários de drogas teriam plenas capacidades de decidir sobre o seu consumo. Não podemos afirmar que todos os que usam drogas estejam comprometidos quanto ao seu julgamento, mas podemos argumentar que uma parte significativa dos usuários apresenta diminuição de sua capacidade de tomar decisões. As drogas que produzem dependência alteram a capacidade de escolher quando, quanto e onde usar. É ilusório pensar que um dependente químico tenha total liberdade sobre o seu comportamento e possa decidir plenamente sobre a interrupção do uso. É por isso que os dependentes persistem no comportamento, com grandes prejuízos individuais, para sua família e para a sociedade. Se, por um lado, a opinião de Fernando Henrique carece de legitimidade com relação aos direitos humanos básicos, pois não existe um direito ao uso de drogas ilícitas, por outro, temos aspectos do debate que não foram mencionados. Por exemplo: existe uma relação entre saúde e direitos humanos. As Nações Unidas e a Organização Mundial da Saúde desenvolveram recentemente o conceito de que todos deveriam ter o direito ao mais alto padrão de saúde possível (right to the highest attainable standard of health). É um conceito relativamente novo, com não mais de dez anos. Afasta-se de declarações vagas sobre saúde e responsabiliza a sociedade e o sistema de saúde pela implementação de políticas que garantam a qualidade dos cuidados. Recentemente o Estado de São Paulo deu um bom exemplo de garantia do mais alto padrão de saúde possível ao proibir o fumo em todos os ambientes fechados. O que se garantiu nessa nova lei não foi o direito de fumar, mas o direito de a maioria da população ser preservada do dano da fumaça. Mesmo os fumantes têm o seu direito a um mais alto padrão de saúde garantido ao ser estimulado a fumar menos. Esse foi um exemplo de como é possível termos intervenções governamentais que preservem o direito à saúde e ao mesmo tempo sinalizem uma intolerância ao consumo de uma droga que mata um número substancial de cidadãos. Experiências de sucesso em outros países apontam na direção de combinar estratégias, do setor de Justiça com o setor educacional e de saúde, para que se obtenham melhores resultados. Leis que sejam respeitadas e fiscalizadas tendo como objetivo o bem comum. A Lei Seca, que proíbe o beber e dirigir, identifica o indivíduo e impõe sanções, também pode ser um exemplo, pelo número de vidas salvas até o momento. O fato de se criar uma intolerância com o fumar ou com o beber e dirigir em nenhum momento produziu desrespeito aos cidadãos que fumam ou bebem. No Brasil não temos uma política de prevenção do uso de drogas. Deixamos os milhões de crianças e adolescentes absolutamente sem nenhum tipo de orientação sobre prevenção do uso de substâncias. Fornecemos muito mais informações sobre o meio ambiente do que com os cuidados de saúde. Temos uma boa política de prevenção ambiental, mas não temos com relação às drogas. Não temos um sistema de tratamento compatível com a magnitude do problema, deixando milhares de usuários completamente desassistidos. O tema proposto por Fernando Henrique Cardoso é importante, traz a oportunidade de debatermos que tipo de política construir para a próxima geração. Queremos uma sociedade em que o uso de drogas seja um direito adquirido? Ou queremos uma sociedade muito mais ativa, em que o sistema de Justiça funcione em sintonia com os sistemas de saúde e educacional e possamos criar ações baseadas em evidências científicas para diminuir o custo social das drogas? Talvez um mundo sem drogas jamais exista. Como também não existirá um mundo sem crimes ambientais ou sem violações dos direitos humanos. Isso, no entanto, não é desculpa para descartar o ideal e continuar a lutar pelo objetivo de um mundo melhor. Tolerar as drogas, banalizar o seu consumo não é a melhor opção para uma sociedade que valorize a saúde e os melhores valores de respeito à dignidade humana.

Ronaldo Laranjeira

08 Março 2011

Cisne Negro


Black Swan / 2010

Darren Aronofsky



Impossível eu não dedicar uma postagem sobre o filme Cisne Negro. No mês de fevereiro assisti ao filme e ainda estou contemplando esta belissíma obra de arte e refletindo no conteúdo exposto nas telas.

Como uma grande amadora do cinema e principalmente dos filmes que enfocam o existencialismo psicológico de suas personagens não poderia deixar de escrever e compartilhar sobre este filme. Durante as semanas que o Cisne Negro estava sendo exibido nas salas de cinemas fui questionada pelas mais variadas pessoas sobre o diagnóstico psiquiátrico da personagem principal.

Primeiramente vou aproveitar para esclarecer alguns pontos importantes sobre este assunto de diagnóstico psiquiátrico no cinema. A “loucura”apresentada nos filmes não tem nenhuma preocupação com sua correspondência na realidade clínica. Apesar dos filmes utilizarem psiquiatras como consultores, sabemos que não cabe a estes a responsabilidade de transpor a realidade da especialidade para suas tramas. A apresentacão da doença é repleta de elementos da cultura do momento e das referências do roteirista e do diretor. Desta forma, o cinema é um dos grandes fornecedores de material de patoplastia na doença mental. Além disso, a representação da doença mental no cinema pode promover reflexões e informações a população em geral sobre determinado tema. Lembrando que nem sempre são as mais adequadas e relevantes sobre o assunto.

"A televisão tem feito muito pela psiquiatria ao espalhar informações sobre ela, bem como ao contribuir para a necessidade dela"

(Alfred Hitchcock)

O objetivo de realizar uma interface entre a psiquiatria e o cinema não é meramente procurar um diagnóstico psiquiátrico. Embora neste blog, eu disponibilizo uma imensa lista de filmes que automaticamente revisitam esta forma de classificação, é apenas uma forma de visualização. Há alguns anos venho criando esta lista de filmes que começou como um hobby pessoal. A cada filme que assisto analiso suas particularidades como:a obra do diretor, o contexto histórico, a dinâmica relacional e a personagem psicológica dos atores principais. Infelizmente, não tenho tempo disponivel para escrever sobre todos os filmes que assisto, pois seriam em torno de 10 a 20 filmes mensais. Normalmente, as discussões acontecem em pequenos bates-papos com outros amantes de cinema. Disponibilizo a lista para apreciadores desta arte e curiosos sobre os aspectos psiquiátricos por de trás das telas. Alertando que não foi apenas um resultado de buscas pelo google.

Então vamos aproveitar o Cisne Negro para uma análise pessoal que convido a todos para uma discussão sob vários focos:

Primeiramente, revisitando o diretor Darren Aronofsky.


http://www.darrenaronofsky.com/DA.html

O primeiro filme deste diretor que assisti é Réquiem para um Sonho (2000), que mostra a visao nítida da evolução dos sintomas e do contexto da dependência química por substâncias diferentes (cocaine, heroína e anfetaminas) nos personagens principais.

http://www.imdb.com/media/rm1462081792/tt0180093



Outros filmes:

  • Pi (1998), que mostra a evolução de um quadro de Esquizofrenia em uma personagem com uma Personalidade Esquizoíde. Mostra referências surrealistas ao diretor David Lynch de Eraserhead (1976)


http://www.imdb.com/title/tt0138704/

http://www.imdb.com/title/tt0074486/


  • Fonte da Vida (2006)

http://www.imdb.com/title/tt0414993/




  • O Lutador (2008), que mostra a trajetória de um lutador de luta livre em decadência que abusa de anabolizantes. Provável quadro de bipolaridade.

http://www.imdb.com/title/tt1125849/




  • Cisne Negro (2010)

Sinopse:

Nina Sayers (Natalie Portman) é uma bailarina delicada e submissa que mora com sua mãe controladora Erica Sayers (Barbara Hershey), ex-bailarina que vive seus sonhos através da vida da sua filha. A grande Oportunidade de sua carreira surge com uma nova montagem de O Lago dos Cisnes, a ser dirigida por Thomas Leroy (Vincent Cassel). Leroy observa as bailarinas Nina e Lily (Mila Kunis), para substituir a bailarina Beth Mac Intyre (Winona Ryder).

Para o diretor Nina é perfeita para interpretar o cisne branco mas falta espontaneidade e sedução para deixar aflorar seu lado escuro para interpretar o cisne negro.
 Cisne Negro usa a beleza do balé para mergulhar nos desdobramentos da mente.

A seguir vou comentar algumas cenas para uma melhor interpretação do filme e suas principais referências. Se você ainda não assistiu deixe esta leitura para depois de ver o filme.

Em uma das cenas iniciais do filme, em que Nina esta a caminho do metro fica claro a referência do diretor ao conto de DOSTOIÉVSKI, O sósia/O duplo (1846).

Para quem quer se aprofundar no assunto vale a pena ler: http://www.psicanaliseebarroco.pro.br/revista/revistas/15/P&Brev15Detoni.pdf

  • Nesta cena Nina imagina encontrar uma sósia a caminho do metro. Após admirar seu reflexo na janela do metro Nina observa a personagem Lily que assim como Nina e sua mãe estavam usando um coque no cabelo na cena anterior a do metro no café da manhã. Lily coloca o cabelo atrás da orelha assim como Nina faz simultaneamente. Um pequeno detalhe que demostra a projeção que Nina faz de sua mãe em Lily.

  • Em outra cena fica claro a admiração de Nina pela bailarina Beth, inclusive Nina rouba alguns objetos pessoais de Beth e posteriormente após ser recusada para o papel ela tenta seduzir atrapalhadamente o diretor Thomas usando o batom de Beth. Consequentemente, Thomas agarra Nina, mas esta não aceita o beijo e morde a boca do diretor. A atitude agressiva de Nina gera o resultado desejado e ela ganha o papel principal do O Lago dos Cisnes de Tchaykovsky.

  • Logo após esta cena, Nina ao chegar em casa observa a sala de pintura de sua mãe com vários retratos de sua juventude misturados como se fossem borrões de identidade. Durante o banho as marcas no corpo de Nina ficam evidentes após ela se automutilar na banheira.

  • Erica infantiliza e tenta controlar Nina de todas as maneiras. Na cena do bolo de aniversário de Nina esta relação fica mais do que evidente. A mãe reage imaturamente quando Nina recusa o pedaço de bolo por ser muito grande. Para evitar o descontrole da mãe, Nina aceita lamber o dedo da mãe como uma criança. A mãe não permite que a filha seja um individuo separado de si. Erica enxerga Nina como um reflexo de si mesma querendo que a filha siga a carreira e atenda as suas necessidades. O quarto de Nina é infantilizado cheio de bichos de pelucias cor de rosa sem nenhuma privacidade pois não há trancas na porta. A mãe a coloca para dormir toda a noite e a chama constantemente de Sweet girl. Estas ações são apropriadas para uma criança se não tiver um contexto sexual. Limites são violados e nem existem. Erica invade o banheiro e exige que a filha tire a roupa para examinar os machucados resultantes de sua automutilação.

  • Depois da noite de gala, no apartamento de Thomas, este pergunta a Nina se ela tem namorado. Ela diz que já teve mas nada sério. Ele pergunta se ela é virgem e ela diz que não. Esta é uma cena que contém a resposta para algumas cenas que seguem a trama. Nota-se que ela não é mais virgem, porem nunca teve um relacionamento sério anteriormente. Sugere-se a partir deste questionamento que ela foi abusada sexualmente durante a infância.

  • Na manhã seguinte, Nina tenta explorar sua sexualidade mas é interrompida bruscamente pela intrusão marietal. Percebe que a mãe está sentada dormindo ao seu lado da cama. Toda a sua sexualidade esta conectada a sua mãe. Durante o banho novamente tenta explorar sua sexualidade mas é interrompida por gotas de sangue caindo na agua. Ela abre seus olhos e vê sua sósia em cima dela. Nina percebe que o sangue é proveniente de sua automutilação que ocorre inconscientemente enquanto ocorre a excitação sexual.

  • No metro encontra um homem idoso pervertido. Nos sonhos os meios de transporte podem significar o curso de sua vida e o trem a falta de controle.

A cena tras a tona a falta de controle da sua vida quando as pessoas passam a desejá-la sexualmente.

  • Após vários ensaios extenuantes e frustrantes Nina sai a noite com Lily. Nina alivia sua ansiedade atraves da bebida e do ectasy e perde o controle da sua sexualidade. Ao confrontar a sua mãe quando chega em casa relata que estava com dois caras e transou com ambos. Erica ignora a presença de Lily na sala que responde simultaneamente com Nina: Fui a Lua e voltei. Indicando que Nina imagina a presença de Lily em sua casa. No dia seguinte no ensaio Lily afirma isto.

  • Nina imagina ter tido uma noite de sexo com Lily que a chama de Sweet Girl. Quando Nina acorda na manhã seguinte, a Madeira que deveria bloquear a porta do seu quarto foi removida indicando que na realidade Nina passou a noite com sua mãe.

  • Nina perde o controle e vem o desejo de matar a mulher que lhe deu prazer. Nina não consegue projetar a sua raiva em sua mãe e projeta em Lily como sendo uma inimiga tentando roubar o seu papel.



Interpretação e referências:

O filme mostra o abuso sexual na infância de Nina pelas mãos de sua mãe. Consequentemente, a mãe tenta manter Nina num desenvolvimento reprimido para evitar que ao tornar-se um ser sexual maduro as memorias do abuso venham a tona. O conhecimento é reprimido pela culpa e a vergonha.

O Cisne negro mostra a psicopatologia de quando um abuso sexual infantil não é tratado. Sintomas claros de baixa auto estima, passividade frente a autoridade, desejos precoces de morte são evidentes.

Traumas cumulativos e repetitivos contribuem para o grau de comprometimento da patologia e traços da personalidade subsequentes.

Comportamento perfeccionista compensatório ao sentimento de vazio e rejeição, automutilação, abuso de drogas, baixa tolerância a frustração, instabilidade emocional, vinculação não resolvida, despersonalização, transtornos de ansiedade estão presentes no filme.




Darren Aronofsky faz um ensaio sobre a dualidade da natureza humana. A cisão da personalidade de Nina fica bastante clara no decorrer do filme.

O processo dissociativo mostra-se claramente quando Nina é obrigada a libertar seus desejos sem a sua permissão para interpretar o cisne negro. Nina tem uma cisão tão forte que ela perde a crítica da realidade e faz coisas que não se lembra. Os autores mataram fisicamente a personagem fazendo um continuum com a história do Lago dos Cisnes. Psicologicamente a personagem se automutila para conseguir aliviar a dor da sua ansiedade decorrente desta cisão.

  • Algumas referências do surrealismo ao fantástico (Luis Bunuel: A Bela da Tarde, David Cronemberg: Mistérios e Paixões, David Lynch: Eraserhead) e sombras expressionistas (O Gabinete do Dr Caligari). Inclusive algumas cenas que induzem a categorização de sintomas delirantes/psicóticos e conduzem ao público questionar um quadro psicótico. Particularmente, não gostei da cena de transformação de Nina em literalmente um Cisne Negro.

  • A sequência em que Nina estraga propositalmente suas sapatilhas revisita a filme Sapatinhos Vermelhos (1948).


  • A forma como o conteúdo psicológico é desenvolvido revisita algums filmes de Roman Polaski (Repulsa ao Sexo e O Inquilino). Na famegerada cena dos espelhos revisita Orson Welles (A Dama de Shanghai).


  • Porém a falta de individualização da personalidade e a cisão da personalidade revisita Ingmar Bergman em Persona. Elementos em espelhos representam claramente a fragmentação da psique da personagem mostrando claramente um processo dissociativo.


Interpretando as referências cinematográficas do diretor e os aspectos psicológicos da personagem Nina sugiro que a personagem tem Traços de Personalidade Borderline.





04 Outubro 2010

Entrevista com o neuropsiquiatra Paulo Mattos (parte 1) sobre DDA










http://www.tdah.org.br/videos/videos07.php?id=1

TENDÊNCIA A DISTRAÇÃO


TENDÊNCIA À DISTRAÇÃO – Identificação e gerência do distúrbio de atenção (DDA) da infância à idade adulta

Hallowell & Ratey

- Síndrome neurológica caracterizada por certa facilidade para a distração e ao aborrecimento, uma tendência maior do que a média das pessoas a dizer ou a fazer o que quer que viesse a mente (impulsividade) e uma predileção por situações de grande intensidade.

- A síndrome de deficit de atenção na verdade apresenta um rótulo imperfeito pois na verdade é uma síndrome de inconstância de atenção. A maioria das pessoas que têm DDA é capaz de uma hiperconcentração da atenção. A hiperatividade pode estar presente ou não, na verdade, muitas crianças e adultos com DDA são um tanto sonhadores e calmos.

- Trata-se de uma síndrome distinta que requer uma investigação e tratamento. Quando não tratada , leva milhões de adultos e crianças a ser mal compreendidos e a se afligir sem nessecidade, ou mesmo a se sentir incapacitados.

- Quando se compreende tudo o que essa síndrome abrange, começa-se a vê-la em toda parte. Pessoas que você costumava considerar desorganizadas, maníacas, agitadas ou criativas, mas imprevisíveis, que você sabe que poderiam realizar mais se simplesmente pudessem concatear as coisas, que parecem desnorteadas na escola e em suas vidas profissionais, que chegaram ao topo mas continuam a se sentir agitadas ou perturbadas- essas podem ser pessoas que de fato têm distúrbio do deficit de atenção. Você pode mesmo reconhecer alguns dos sintomas em seu próprio comportamento. A melhor maneira de compreender o que é e o que não é DDA consiste em ver como esse distúrbio afeta a vida das pessoas. O diagnóstico de DDA não se baseia na simples presença dos sintomas, mas em sua gravidade e duração, e em extensão interferem na vida cotidiana. É muito comum que as pessoas com DDA se automediquem com álcool, maconha ou cocaína. Problemas de linguagem podem ocorrer de diferentes formas. Problemas receptivos de linguagem podem afetar tanto o que você capta como você expressa. Problemas expressivos de linguagem tanto o que a gente é capaz de escrever ou falar ou como o que é capaz de conceituar no cérebro.

- As pessoas com DDA são muito agradáveis, mas costumam escolher os caminhos mais difícieis. Podem ser extremamente irritantes, mas também podem ser simpáticos, intuitivos, solidários numa intensidade pouco comum, como se naquele emaranhado circuito cerebral houvesse uma capacidade especial de ver o interior das pessoas e das situações. Pessoas com DDA têm dificuldade em fazer uma coisa de cada vez. Os sintomas oficiais do DDA são inatenção, impulsividade e, ás vezes, mas nem sempre, hiperatividade ou excesso de energia. Essas pessoas não param quietas. São pessoas com alta energia, voltadas para a ação, sempre direto no assunto, “tenho-de-correr”. Têm vários projetos simultaneos, estão sempre seguindo em terreno pedregoso. Empurram as coisas com a barriga e têm dificuldade em concluir. Seu humor pode ser bastante instavel, com altos e baixos repentinos sem razão aparente. Podem ser irritadiças, até mesmo coléricas, especialmente quando interrompidas ou quando passam uma transição. Suas lembranças são cheias de lacunas. Têm devaneios frequentes. Adoram situações que envolvam estimulos fortes, ação e novidade. Inúmeros adultos com DDA adoram pilhas, pequenas e bagunçadas, grandes e bagunçadas, pilhas por toda a parte. São como um subproduto da atividade cerebral. Esse tipo de problema pode se manifestar no trabalho e também pode interferir em relacionamentos íntimos.

SINOPSE DO TRATAMENTO DO DDA

1) DIAGNOSE: O primeiro passo do tratamento é fazer o diagnóstico, que frequentemente acarreta um alívio considerável à medida que o individuo se sente assim: “Finalmente há um nome para isso!” A terapia começa aí.

2) EDUCAÇÃO: Quanto mais a pessoa aprende sobre DDA, mais eficiente se torna a terapia. Um conhecimento completo permite que você compreenda melhor onde afeta a sua vida e o que fazer a respeito. Também possibilita que você cumpra a etapa de explicá-lo a outras pessoas.

3) ESTRUTURAÇÃO: A estrutura se refere aos limites externos e ao controle de que as pessoas com DDA precisam com tanta urgencia. Ferramentas práticas e concretas, como listas, lembretes, sistemas de arquivos simples, cadernos de anotações, metas, planejamento do dia e coisas desse gênero podem reduzir bastante o caos interior de alguém com DDA, aumentando a proditividade e o senso de controle da pessoa.

4) COACHING TÉCNICO OU TREINAMENTO E/OU PSICOTERAPIA: A pessoa com DDA tirará grande proveito se contra com um instrutor, alguém jogando nas laterais com um apito no pescoço, soprando palavras de encorajamento, instruções e lembretes e, em geral, ajudando a manter as tarefas em dia.

5) MEDICAÇÃO: Existem vários medicamentos que podem ajudar a corrigir muitos dos sintomas do DDA. O remédio funciona como um par de óculos, ajudando os individuos a concentrar a sua atenção. Também pode ajudar a reduzir a sensação de turbilhão interior e a ansiedade, tão comuns em pessoas com DDA. O remédio atua corrigindo o desequilibrio químico nos neurotransmissores, que no caso do DDA, ocorre em partes do cerebro responsáveis pela regulação da atenção, controle dos impulsos e do humor. Embora não seja a resposta para o problema, o medicamento pode proporcionar um alívio profundo e é bastante seguro quando usado de maneira apropriada.

DDA EM ADULTOS

CRITÉRIOS DIAGNÓSTICOS SUGERIDOS PARA O DDA EM ADULTOS

A. UMA PERTURBAÇÃO CRÔNICA EM QUE PELO MENOS QUINZE ENTRE AS SEGUINTES CARACTERÍSTICAS ESTEJAM PRESENTES:

1.Uma sensação de baixo rendimento, de não atingir as próprias metas (independente do quanto a pessoa de fato realize). “Simplesmente não consigo me realizar”

2. Dificuldade em organizar-se. As pequenas coisas odem “amontoar-se”, criando enormes obstáculos.

3. Adiamento crônico do início de tarefas.

4. Muitos projetos tocados simultaneamente, dificuldade em levá-los adiante.

5. Tendência a dizer o que vem a mente, sem considerar o momento e a conveniência do comentário.

6. Busca frequente por forte estimulação.

7. Intolerância ao tédio.

8. Facilidade para distrair-se, problema de concentracão, tendência a se desligar ou ficar à deriva no meio de uma página ou diálogo, às vezes acompanhados de uma capacidade de hiperconcentração. A pessoa próxima percebe que ela não está ali.

9. Frequentemente criativo, intuitivo e muito inteligente.

10. Dificuldade de seguir caminhos preestabelecidos, em proceder de forma “apropriada”.

11. Impaciência. Baixa tolerância a frustração.

12. Impulsivo, verbalmente e nas ações – como gastar dinheiro impulsivamente, mudar de planos, fazer modificações em projetos profissionais.

13. Tendência a uma preocupação desnecessária e sem fim.

14. Sensação de insegurança.

15. Humor oscilante, lábil, sobretudo quando desvinculado de uma pessoa ou projeto. Essas variações não são tão acentuadas como as que se apresentam na depressão ou transtorno bipolar.

16.Inquietude. “Energia nervosa”

17. Tendência a comportamento aditivo ou viciado. Droga, álcool, maconha, cocaína; alguma atividade como: jogos, compras, comida ou trabalho.

18.Problemas crônicos de auto-estima.

19. Auto observação imprecisa.

20. Histórico familiar de DDA,transtorno bipolar, depressão, uso de substâncias, transtornos de impulsos.

B. HISTÓRICO DE DDA NA INFÂNCIA (pode não ter sido diagnósticado, mas os sinais e sintomas certamente estavam na infância).

C. SITUAÇÃO NÃO EXPLICADA POR OUTRA CONDIÇÃO MÉDICA OU PSIQUIÁTRICA.

Esses critérios baseiam-se na experiência clínica e enfatizam toda gama de sintomas associados ao DDA em adultos.

Paul Wender propõe um outro conjunto de critérios para o diagnóstico de DDA em adultos, utilizados por muitos pesquisadores nessa area. Esses critérios se concentram nos sintomas nucleares do DDA sem entrar em sintomas associados, ou achados, como o uso abusivo de substâncias ou história familiar. Nos referimos a esses critérios como “Critérios de Utah”.

1) História de DDA na infância com deficits de atenção e hiperatividade motora, junto com pelo menos uma das características a seguir: problemas de comportamento na escola, impulsividade, excitabilidade excessive e explosões de temperamento.

2) História, quando adulto, de problemas persistentes de atenção e hiperatividade motora associada a dois dos cinco seguintes sintomas: labilidade afetiva, temperamento esquentado, intolerância ao estresse, desorganização e impulsividade.

Seja qual for o diagnóstico tomado como referência, enfatizamos a import6ancia de a pessoa não se autodiagnosticar. É essencial que haja a avaliação de um medico para que se possam excluir outras possibilidades diagnósticas.

Não se tem uma definição concise para o DDA, em vez disso, temos que nos basear nas descrições dos sintomas que o definem. Essas definições, com frequência, concentram-se numa parte ou outra da síndrome, hipervalorizando este ou aquele aspecto. Quando nos concentramos em uma das partes da síndrome, arriscamo-nos a subestimar outra parte bem diferente. Se nos concentrarmos na desatenção, por exemplo, podemos esquecer o fato de que a maior parte das pessoas com DDA pode ter às vezes momentos de hiperconcentração. Ou, se nos concentrarmos na hiperatividade, podemos estar deixando de lado as muitas pessoas com DDA que são sossegadas e vivem em devaneios. É difícil recuar e ver que todos esses vários aspectos fazem parte de um todo maior. A nomenclatura diagnóstica formal reconhece apenas dois subtipos de DDA: com hiperatividade e sem hiperatividade. Alguns subtipos da prática clínica incluem: DDA sem hiperatividade, DDA com ansiedade, DDA com depressão, DDA com outros distúrbios da aprendizagem, DDa com agitação ou mania, DDA com abuso de substâncias, DDA na pessoa criativa, DDA com comportamento de alto risco, DDA com estados dissociativos, DDA com características de personalidade limítrofe, DDA com características de personalidade antisocial e DDA com distúrbio obsessivo compulsivo.

Em razão de muitos sintomas secundários do DDA se desenvolverem com o tempo, tais subtipos se aplicam principalmente ao DDA observado em adultos.

19 Setembro 2010

Substância do cérebro pode combater vício da maconha



Pesquisa. A desconhecida anandamida gera efeitos semelhantes aos do principal componente da ervaCientistas fazem estudos em busca de uma droga para tratar dependentes
Jornal O Tempo - TATIANA LAGÔA

O remédio ideal para se combater a dependência da maconha pode estar dentro do próprio cérebro do dependente. A substância "mágica", capaz de realizar esse feito, já foi descoberta por especialistas e tem nome: anandamida. Como ela tem efeitos muito parecidos com os da droga, pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e da Universidade de São Paulo (USP) agora tentam descobrir como utilizá-la no combate ao vício da erva.
Foto: CHARLES SILVA DUARTE
Esperança. Fabrício de Araújo Moreira, professor da UFMG, desenvolve estudos com a anandamida para tratar dependência por maconha

Os pesquisadores ainda não conhecem a função da anandamida no cérebro, mas já sabem que ela tem propriedades semelhantes às do Tetra Hidro Carboneto (THC), principal componente da maconha. Ambos possuem efeitos analgésicos, ansiolíticos e antidepressivos.De acordo com o biólogo, professor do Departamento de Farmacologia do Instituto de Ciências Biológicas da UFMG e coordenador da pesquisa, Fabrício de Araújo Moreira, o grande desafio é o de descobrir uma forma de manipular a anandamida de modo que ela supra a necessidade do uso da droga.

"O que estamos em busca é de uma forma de interferir no nível de anandamida para tratar viciados na maconha ou até em outras drogas. Como ela é uma substância do próprio cérebro, não deve causar os efeitos negativos que a maconha induz, como sintomas psicóticos", afirma.
O especialista explica que o THC é negativo para o usuário por causar um desequilíbrio cerebral. Isso porque os receptores existentes no cérebro deveriam reagir apenas com a anandamida. Mas, quando consumido, o THC ocupa o espaço dessa substância natural e se liga a esses receptores. Os resultados disso na prática são perda de memória, lentidão de pensamentos, entre outras consequências negativas. (veja quadro)

O médico psiquiatra, professor da USP e membro do grupo de estudos e pesquisas em psicose e ansiedade da universidade José Alexandre Souza Crippa também participa da pesquisa feita em conjunto entre a USP e a UFMG. Com a experiência de quem já participou de um grupo de estudos na Inglaterra ele explica que pelo menos 80 das, aproximadamente, 400 substâncias contidas na droga podem ser usadas como remédios para uma série de doenças. O próprio THC, se usado na dose correta e sob prescrição médica, pode curar crises de náuseas.

Outro composto que poderia ser utilizado medicinalmente é o canadibiol ou CBD. Segundo ele, já foram realizados testes com seres humanos na USP que demonstraram a eficácia da substância para o tratamento de ansiedade e esquizofrenia. Agora, eles começaram a realizar o teste em dependentes de maconha e tabaco. A expectativa é que daqui a três anos seja descoberto se de fato a substância seria capaz de combater esses vícios. Caso fique comprovado, a intenção é a de se pensar medicamentos a base de CBD. "O CBD é positivo porque não parece causar dependência, como ocorre com o THC", disse.

O pesquisador ressalta que o objetivo das pesquisas não é o de levar as pessoas a usarem a droga, mas descobrir formas de utilizar os componentes dela separadamente no combate de doenças. "Somos favoráveis à utilização das substâncias com prescrição médica e não à forma como as pessoas utilizam atualmente", ressalta.

"Há risco de abstinência", diz médico
Ao contrário do que muitos usuários de maconha acreditam, a droga causa dependência sim, alerta o médico e psiquiatra José Alexandre Souza Crippa. "Algumas pessoas dizem que a maconha não causa crise de abstinência, mas é mentira. Assim como o álcool e as outras drogas, ela leva ao vício", defende.
Para o especialista, o argumento de que a maconha tem substâncias com funções medicinais não é válido para justificar a liberação da droga. "Dizer que fumar maconha é permitido porque tem substâncias medicinais é quase a mesma coisa que afirmar que feijoada e feijão são iguais. No meio da feijoada, assim como da maconha, há uma série de coisas misturadas", disse.
Crippa defende ainda que, no uso medicinal, a erva não seja fumada e, sim, ingerida como um medicamento (pílula, por exemplo). (TL)

Semelhança
Outro caso. Não só a maconha tem substâncias que podem ser utilizadas para fins medicinais. O ópio também é uma droga que causa dependência. Dele, é retirada a morfina, usada no tratamento contra a dor. O cérebro também produz uma substância parecida com ela, chamada endorfina.

Publicado em: 15/09/2010